quinta-feira, 15 de julho de 2010

A importância do Chapéu de palha para a minha família



Já no tempo dos meus bisavós a família Couto (bisavós maternos) era negociadora de Chapéus de Palha.
Na década 20 do século XX, na casa do Macieiro (caso dos meus avós), eram intensas as actividades relacionadas com as etapas necessárias para a elaboração do chapéu de palha e da sua comercialização.
Havia um espaço próprio, no interior da casa, com máquinas a pedal, para coser os chapéus, cestas e passadeiras. No espaço envolvente, quer interior quer exterior, todos os tempos livres eram ocupados a entrançar as palheiras para se obter a trança (entrançado, que depois de unido com determinada configuração dá origem ao produto final desejado.
Vários comerciantes de Braga dirigiam-se a Travassós para obter o Chapéu de Palha, tão utilizado na época para proteger os agricultores do país inteiro dos intensos raios solares.
Esta actividade resistiu até aos dias de hoje. É habitual visualizar familiares a desenvolver cada uma das etapas já mencionadas.

Da semente até ao chapéu de palha


1º Semear

A semente do centeio é lançada em terra fofa nos meses de Outubro e Novembro. A germinação ocorre durante o mês seguinte, desenvolvendo-se muito devagar devido ao frio intenso.



2ºcorte da ferrã

Nos meses de Fevereiro e Março os dias começam a crescer e a ficar mais quentes, proporcionando as condições mais favoráveis para o desenvolvimento do centeio. Ainda antes da formação da semente (na espiga do centeio), última quinzena de Abril e primeira quinzena de Maio, o caule do centeio tem de ser cortado, para que a palha (caule do centeio) possa ser facilmente manejada. O caule é conhecido por ferrã. Para o efeito, é habitual a concentração de várias famílias para que este trabalho fique mais facilitado. Umas cortam os caules, outras espevitam (sacodem os caules mais pequenos, que não têm utilidade) e outros estendem-nos no monte para secar.



3ª Enfaixar e branquear a ferrã

Quando seca, a ferrã é agrupada em faixas, para que possa ser transportada para o local onde irá ser protegida da chuva, repousando cerca de um mês. Depois é novamente estendida no monte pois, para branquear, necessita de ficar exposta cerca de 2 a 3 noites ao orvalho.

4ª Segmentação da ferrã e tratamento anti-fungos

É novamente enfaixada e transportada para um local resguardado onde cada caule será segmentado de modo a obter-se palheiras de várias dimensões e diâmetros, que serão utilizadas para produtos diferentes. As de diâmetro intermédio (cerca de 2 a 3 mm) servem para a elaboração do entrançado dos chapéus de palha e cestas, as mais grossas (diâmetro da ordem dos 4 a 6 mm servem para a elaboração do entrançado dos abanadores e chapéus de travessão.
As palheiras são organizadas por diâmetro obtendo-se "madas" de palha (pequenos conjuntos de palheiras do mesmo diâmetro) que posteriormente serão introduzidas dentro duma caixa de madeira conjuntamente com enxofre em combustão, para branquear.
Só nesta altura é que a palha fica pronta para poder ser entrançada, após mergulhada em água durante algumas horas. Há ainda a possibilidade de tingir com tintas de cores diversas para o embelezamento do produto final.

5ªEntrançado

Após a palha se encontrar devidamente branqueada e com o tratamento anti-fungos, é realizado o entrançado, que será depois utilizado para confeccionar o chapéu de palha ou outro produto proveniente da palha.

6ª Produtos finais

A trança (entrançado) é unida e moldada de acordo com o produto final que se deseja obter.

O que as memórias relatam acerca da origem da indústria do chapéu de palha na freguesia de Travassós


No início do século XX, várias freguesias do Concelho de Fafe confeccionavam e negociavam chapéus de palha, nomeadamente: Golães, Revelhe, S. Vicente, Travassós e Vila Cova. Na actualidade, só em Travassós é possível encontrar facilmente quem confeccione este produto. Contudo, não há registo do momento exacto do início desta actividade no Concelho, sabendo-se apenas, que vem de tempos imemoriais.
Até aos anos 40 do século XX, o chapéu de palha era cosido à mão. Em meados dos anos 40, surge a máquina de coser “a pedal”, que veio aumentar significativamente a produção de chapéus, nessa altura, com muita saída. Só quando a electricidade chegou é que as máquinas “a pedal” puderam ser substituídas por máquinas “a motor”, o que trouxe enorme descanso às operárias. A electricidade chegou a Travassós em 1975.
A economia de Travassós estava muito relacionada quer com a agricultura, quer com a confecção do chapéu de palha. Até meados dos anos 90 do século XX, muitas pessoas desta freguesia confeccionavam a “trança”, para ganharem alguns trocos para o seu sustento. Famílias inteiras as confeccionavam. Contudo eram os negociadores desta arte que mais benefícios financeiros tiravam desta actividade. No início do século XX, havia três negociantes de palha: Joaquim Vale Moreira, do lugar da Ponte; António Rodrigues, do lugar da Costeira e Adélia Vieira de Castro, do lugar de Requeixo. Nessa altura, chegavam compradores, em carroças puxadas por cavalos, vindos de Penafiel que pernoitavam na freguesia. Após o aumento da produção, compradores de Braga e de Marco de Canaveses substituíram os de Penafiel.
O declínio deste comércio verificou-se a partir de meados dos anos 90. Houve decréscimo acentuado na confecção da trança, dado que tratava-se duma actividade muito mal paga, sendo, por isso, substituída, em grande parte pela confecção de artigos têxteis. Além desse motivo, verificou-se, igualmente, decréscimo da procura deste produto. A confecção da trança, passou a ser assegurada, apenas pelas pessoas mais velhas (reformadas) a tempo inteiro e por alguns mais novos, nas horas vagas.

Introdução

Com este blog pretendo dar a conhecer todos os passos que têm de ocorrer para se obter um chapéu de palha ou qualquer outro produto confeccionado com palha.
Esta arte desenvolve-se nalgumas freguesias do Concelho de Fafe, embora o esforço despendido não seja compensado.